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Opinião

Entre a saúde pública e a atividade econômica: existe uma escolha a ser feita?

Não é possível tratar tais situações isoladamente, há uma interdependência entre elas

 
 
 

Caros leitores, estamos diante da “maior crise sanitária da nossa época”, provocada pela pandemia do novo coronavírus (Covid 19), conforme aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS). Advinda da China, seus efeitos têm contaminado os mais diversos setores da sociedade globalizada e, principalmente, contabilizado inúmeras mortes e profundos impactos na estrutura econômica, seja na produção industrial, varejo e ativos financeiros.

 

Em decorrência disso o continente europeu com o passar dos dias tem se tornado o novo epicentro da pandemia do Covid 19 e também tem sido fortemente afetado, uma vez que responde por cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Com relação à economia americana existem projeções que o impacto pode levar inclusive a sua recessão.

 

Nessa conjuntura, governos, empresas e pessoas estão sendo desafiados a tomarem decisões sobre forte cenário de estresse. Considerando essa situação, Noah Harari, historiador e escritor, afirma que é possível que estejamos enfrentando a maior crise de nossa geração e que as decisões tomadas poderão moldar a forma de organização da nossa sociedade no futuro, influenciando a política, os sistemas de saúde, a economia e a cultura (hábitos, costumes, noção de moral, comportamento ético). O que está em questão, segundo Noah Harari, são as consequências em longo prazo, levando em consideração as decisões de hoje. Decisões que antes demorariam anos dentro do jogo democrático, hoje precisam ser tomadas com urgência, na tentativa de reduzir riscos e amenizar os efeitos avassaladores dessa crise.

 

Contudo, Thomas Friedman, escritor do livro “O Mundo é Plano”, afirma que a política de bloqueio de fluxos de negócios e pessoas que vem sendo indicada pelos Organismos Internacionais e adotada como medida de emergência ao enfrentamento à pandemia do novo coronavírus pode reduzir sua disseminação e, por conseguinte, o número de casos confirmados e óbitos. Entretanto, tais medidas de caráter restritivas acarretam inúmeros problemas de ordem mental e social devido à paralisação das atividades econômicas.

 

Nesse contexto, José Mauro Nunes, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), reforça que essa paralisação da economia pode causar falência de pequenas e médias empresas e aumento das taxas de desocupação de mão-de-obra e de desalentados (pessoas que desistem de buscar trabalho). Além disso, Nunes destaca que nas diferentes classes sociais há uma menor parcela que consegue acumular reservas financeiras ao longo do tempo e que existe uma grande maioria de pessoas mais vulneráveis economicamente que precisam vender produtos e serviços de forma autônoma para garantir um fluxo de caixa no seu orçamento. Para estas pessoas, de modo particular, a paralisação da economia gera um impacto sem precedentes, uma vez que compromete sua sobrevivência.

 

Diante desse cenário de crise de saúde pública, agravamento da questão social e profundo impacto econômico, urge a necessidade por respostas capazes de atenuar tais efeitos na vida das pessoas. Contudo, não é possível tratar tais situações isoladamente, há uma interdependência entre elas e o grau de complexidade para a tomada de decisões envolve vidas humanas e perdas econômicas severas.

 

Nesse sentido, o economista Amartya Sem, ganhador do prêmio Nobel de Economia, defende a necessidade de articulação de objetivos sociais e econômicos. Para ele, uma sociedade precisa ser economicamente viável e socialmente justa, pois o desenvolvimento autêntico só se materializa com ampliação das liberdades, que passa por um maior acesso a oportunidades econômicas e garantias de direitos sociais. O atual cenário limita a visão de desenvolvimento defendida por Amartya Sen, pois o que se apresenta é um cenário de forte restrição econômica e social com fechamento de empresas, aumento de desemprego e queda na renda do trabalho.

 

Sendo assim, é possível conciliar um equilíbrio no sentido de preservar a vida e minimizar os impactos socioeconômicos diante desse contexto de crise?

 

Essas decisões geram inevitavelmente resultados positivos e negativos, mas cabe aqui fazer a seguinte reflexão diante dessas configurações: qual a dimensão dos ganhos em relação às perdas? Maiores ganhos ou maiores perdas?

 

Independente das decisões a serem tomadas e suas implicações, os critérios que devem nortear a elaboração de políticas públicas e as medidas econômicas precisam obedecer princípios morais humanistas que guiem as condutas éticas de pessoas, governos e empresas nas escolhas adotadas. Não há escolha a ser feita entre saúde pública e atividade econômica.

 

Coronavírus surge como problema de saúde pública que impõe desafios transversais nos diversos campos da vida: moral/ética, na economia (mercado/políticas públicas), biologia, educação, política e etc.

 

i) A ciência é o fenômeno que carrega em si a expansão do conhecimento para se enfrentar tais desafios;

ii) Este fenômeno ocorrerá sob a condição de um método científico;

 

Seguindo esse mapa, diante do desafio teremos avançado na curva de aprendizagem, fora disso, teremos falhado e acumulados: tempo perdido e prejuízos para pagarmos mais adiante.

 

 

Referências:

ENRIDO. A ciência econômica e a economia: o método e o fenômeno. Disponível em: https://medium.com/@HenridoYT/a-ci%C3%AAncia-econ%C3%B4mica-e-a-economia-m%C3%A9todo-e-fen%C3%B4meno-5ecff8375a58. Acesso em: 27 de março de 2020.

HARARI, Yuval Noah: o mundo após o coronavírus. Disponível em: https://www.ft.com/content/19d90308-6858-11ea-a3c9-1fe6fedcca75. Acesso em: 27 de março de 2020.

NUNES, José Mauro: O combate ao coronavírus: o ascensor para o cadafalso? Disponível em: https://medium.com/@josemauronunes/o-combate-ao-coronav%C3%ADrus-o-ascensor-para-o-cadafalso-615d1226a2c2. Acesso em: 27 de março de 2020.

Fonte: Fernando Galvão, - economista, professor e conselheiro do CORECON-PI

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