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“Genocídio” na Bolsa de Valores brasileira

Esperava-se que o número de investidores no país chegasse a 3 milhões em 2020, mas os “Cisnes Negros” do petróleo e do coronavius mudaram o cenário

 
 
 

No Brasil, no ano de 2019, foram criadas expectativas positivas do mercado em torno da economia e o seu potencial desempenho conduziu os agentes econômicos (empresas, pessoas) a tomarem decisões, sobretudo, em relação a aplicações financeiras.

 

A conjuntura econômica com alta taxa de desemprego reprimiu o consumo e “aliviou” pressões inflacionárias de demanda. Isso acontece quando o consumo das pessoas ultrapassa a capacidade das empresas ofertarem produtos e serviços, contribuindo para o aumento de preços. Este cenário permitiu que Banco Central adotasse uma sistemática de redução de juros da Taxa Selic (taxa básica de juros da economia) para níveis historicamente baixos, já que o risco de inflação alta estava descartado.

 

Tal movimento gerou nas aplicações financeiras conservadoras a redução na rentabilidade (poupança, títulos do tesouro direto). Ao mesmo tempo, a larga oferta de conteúdo com foco em “aconselhamento” de investimentos apontava para uma nova possibilidade direcionada ao mercado de ações (títulos de renda variável).

 

Contudo, apesar da economia brasileira ter apresentado um baixo desempenho, indicado pelo crescimento de apenas 1,3% do PIB nos anos de 2017 e 2018, a bolsa de valores bateu recorde no seu volume de negociações em 2019. Para demonstrar esse salto, basta observar que no dia 23 de janeiro de 2020, o Índice Ibovespa (média das ações mais negociadas) alcançou os 119.529 pontos, sendo que na mesma data do ano anterior, a pontuação registrada foi de, aproximadamente, 93.000 pontos, ou seja, o otimismo havia contaminado o mercado de ações no Brasil.

 

O recorde de pontuações positivas levou a Bolsa Brasileira a ultrapassar o seu número de investidores, registrando 1,5 milhão de Cadastros de Pessoas Físicas (CPFs) em 2019. Foram 70.000 mil novos investidores a cada mês, no período de janeiro a outubro, totalizando 700.000 novos CPFs, de acordo com Revista Veja (2019). A expectativa para 2020, de acordo com gestor de recursos, Henrique Bredda da Alaska Asset Management, era chegar a 3 milhões de CPFs registrados.

 

Entretanto, é importante lembrar que o Brasil sempre teve dois grandes obstáculos para uma maior participação de investidores na bolsa, sendo eles: a falta de informação sobre o seu funcionamento e a baixa renda do brasileiro, que dificulta a geração de saldos extras destinados a investimentos. Apesar disso, as expectativas positivas levaram milhares de CPFs de perfis conservadores a direcionarem suas sobras de caixa para ativos de renda variável (ações), buscando maior rentabilidade.

 

O problema é que o comportamento da economia depende de um conjunto complexo de variáveis que colocam em risco cenários-bases, abalam o mercado e, consequentemente, causam profundos impactos ao tecido social, político e financeiro. O escritor Nassim Taleb denominou esses eventos capazes de jogarem no lixo inúmeras análises que projetam o comportamento econômico de “Cisnes Negros”, reforçando que estamos sujeitos a imprevisibilidade.

 

Com isso, apesar de todo otimismo demonstrado em 2019, dois poderosos “Cisnes Negros” abalaram a economia global e fizeram derreter o recorde da bolsa de valores brasileira, neste primeiro trimestre de 2020: o coronavírus e a crise do petróleo, dois tiros capazes de “cancelar milhares de CPFs”.

 

Infelizmente, eventos como esses são comuns em um contexto de livre mercado em que funciona sem informação perfeitamente acessível a todos os seus jogadores. A maioria fica exposta a elevados riscos (manada), enquanto os “tubarões” embolsam seus ganhos de capital. Isso contribui para a manutenção de relações sociais desiguais, em que os ganhos são privatizados por uma minoria e as perdas socializadas por quase todos.

 

Referências

BOVESPA Online. ToroRadar. Disponível em: https://app.tororadar.com.br/bovespa/?utm_source=google&utm_medium=cpc&utm_campaign=286556628&utm_content=10897821828&utm_term=infomoney%20%2Bibovespa&gclid=EAIaIQobChMIwZGbzvqr6AIVUQWRCh0CKAQ_EAAYASAAEgKNRvD_BwE Acesso em: 20 de março de 2020.

 

LAPORTA, Thaís. Revista Exame: Bolsa atinge a marca de 1,5 milhão de investidores. Disponível em: https://exame.abril.com.br/mercados/bolsa-brasileira-atinge-a-marca-de-15-milhao-de-investidores/ Acesso em: 05 de janeiro de 2020.

 

RIZÉRIO, Lara. InfoMoney: Ibovespa acima dos 130 mil pontos: as projeções dos analistas para a bolsa em 2020 (e as ações preferidas). Disponível em: https://www.infomoney.com.br/mercados/ibovespa-acima-dos-130-mil-pontos-as-projecoes-dos-analistas-para-a-bolsa-em-2020-e-as-acoes-preferidas/ Acesso em: 02 de fevereiro de 2020.

 

SOBRAL, Lilian. InfoMoney: Os principais cisnes negros de 2019, e suas consequências para os investimentos. Disponível: https://www.infomoney.com.br/onde-investir/os-principais-cisnes-negros-de-2019-e-suas-consequencias-para-os-investimentos/ Acesso em: 02 de fevereiro de 2020.

Fonte: Fernando Galvao - economista, professor e conselheiro do Corecon-PI

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